sexta-feira, 23 de junho de 2017

Até amanhã, se deus quiser

Duas idosas saem da mercearia de uma terceira.

- Até amanhã, se deus quiser! - diz uma, coloquialmente.
- Até amanhã, se deus quiser! - diz outra, animadamente.
- Até amanhã... se deus quiser... - diz a última, com uma entoação que transparece o pensamento "Se ele não quiser, sei onde ele mora e sei como usar uma catana e fazer com que pareça um acidente".

A ternura dos setenta.

domingo, 18 de junho de 2017

Pequeno diário 118

Este ano, mais do que em anteriores, está toda a gente em casamentos menos eu...

...e não podia estar mais agradecido por isso!

terça-feira, 13 de junho de 2017

Frases a pessoas da minha vida

Nem sempre as frases que ficam são frases que ficam por ser ditas. Há coisas pensadas cujo destino é nunca chegarem ao destino.

A ti: Espero que consigas ser a pessoa com quem queres viver.
A ti: Espero que consigas viver com a pessoa que és.
A ti: Espero que consigas ser quem dizes.
A ti: Espero que consigas viver como devias dizer.
A ti: Espero que consigas viver e ser como deves.

Tu, primeira: Não mereces o que a vida te dá.
Tu, segunda: Mereces muito mais do que a vida te pões à frente.
Tu, terceira: Faz por merecer.
Tu, quarta: Mereces, tens, mas não vês sempre.
Tu, quinta: Achas que não, mas mereces tudo de bom.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Smartphone, smartsenses

Olhar para o telemóvel pode estar a causar-me problemas de pescoço, talvez problemas de visão, possivelmente a dar-me um queixo duplo. Talvez me faça ignorar as pessoas que passam por mim na rua e, com azar, é possível que me desregule os ciclos de sono.

Contudo, como em tudo, nem tudo é mau.
Apercebi-me que a minha audição anda mais focada no detalhe. Ouço as gotas que caem de uma varanda molhada e o meu cérebro calcula involuntariamente a mudança de trajecto necessária para as evitar. E quantas vezes apanhei com pingas frias no pescoço, enquanto caminhava sem prestar atenção ao smartphone.
A minha visão periférica detecta facilmente desníveis e buracos no chão, e ultrapasso-os sem problemas. E quantas vezes estive por um triz de bater com o cu no chão após um deslize, enquanto caminhava de olhos no caminho.
Estou quase capaz de dizer que o meu olfacto detecta as mudanças de cor dos semáforos das passadeiras para peões, mas isso se calhar já era exagerar um pouco. E quantas vezes já atravessei perante um senhor vermelho luminoso, enquanto caminhava de cabeça erguida.

Se calhar, de certa forma, estou a ficar mais bem preparado para um qualquer momento de sobrevivência. Os meus instintos deverão estar a ficar mais afinados. O meu lado Bear Grylls deve estar a vir ao de cima. E tudo isto enquanto evito fazer likes acidentais em fotos com três meses, naquelas pessoas em que ando a cuscar no Instagram!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Pequeno diário 117

Se há coisa que eu gosto é de ser acordado em horas normais de sono. Especialmente se forem cinco e meia da manhã e o que me acorda é o meu computador a ligar-se sozinho.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Entendimento

"De uma forma geral, (...), um dos verdadeiros efeitos negativos da religião é que ensina-nos que estar satisfeito com a falta de compreensão é uma virtude."

Tradução livre de um excerto do livro "The God Delusion", de Richard Dawkins.


A falta de compreensão, de entendimento, de conhecimento sobre as coisas é algo que vai sempre acontecer na nossa vida. Perceber tudo é impossível e, para evitar frustrações, eventualmente temos que aprender a conviver com o desconhecido, com a nossa ignorância. Aceitar a nossa ignorância.
MAS, a aceitação e a atribuição de virtude à ignorância são coisas diferentes.

Mistérios da fé. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Acordar a malta

Dizia (e ainda diz) José Afonso, "Quando o pão que comes sabe a merda (...) o que faz falta é acordar a malta".

Dizia (e ainda diz), mas a voz é pouco ouvida, a letra pouco lida, a mensagem pouco sentida. Numa era em que, mais do que nunca, mais e mais pessoas podem moer o seu próprio cereal, tudo permanece dormente perante o pão mal amassado. Não a dormir... mas dormente. Come-se o pão que sabe a merda, sabe-se que não sabe ao que era suposto saber, mas continua a não se trocar de padaria.
Não disse (ou talvez tenha dito), mas pensou (ou talvez não tenha pensado), que Liberdade também é não se querer usar dela. Liberdade também é contentar-se com o pão sem farinha.

Panem et circenses para quem come o circo e pouco precisa de pão.

Dizia (e dirá) José Afonso, "O que faz falta é acordar a malta!". Porque, na realidade, a malta já tem poder.

Cravos.