segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A ternura dos oito

A inocência e ignorância das crianças tem várias características. Para os adultos que as vêem de fora, são coisas fofas, ternurentas, engraçadas; para os próprios infantes, são uma emoção!

Estava eu, há quinhentos anos atrás, a frequentar a segunda ou terceira classe quando, mal entro na escola, com os meus colegas, recebo a notícia de que tinha havido um assalto. A adrenalina subiu ao máximo. Assaltos eram coisas do telejornal e dos filmes, mas tinha acontecido um ali, na nossa segunda casa de todos os dias!
Como é óbvio, na nossa cabeça de sete ou oito anos, nunca na vida os ladrões iriam entrar na Escola apenas para roubar dinheiro e bens. Como é óbvio, teriam que deixar armadilhas em todo o lado! Entramos na sala a medo e nenhum de nós se sentou... tocar numa das cadeiras poderia accionar um qualquer explosivo. Os cadernos estavam no mesmo sítio onde tinham sido deixados no dia anterior, aliás, tudo estava no mesmo sítio (nem sequer tinham ido àquela sala, mas nós não sabíamos); mesmo assim, não mexemos em nada. Sabe-se lá que bomba poderia estar escondida... ... ... no meio de um caderno! Já para não falar de doenças que os (certamente) drogados, teriam deixado nos nossos lápis e canetas, de propósito!

"Droga!", grita uma colega, apontando para uma prateleira.
Fomos todos espreitar. De facto, no fundo do armário escuro, via-se um saco com um conteúdo branco. Ignorantes, mas não tanto. Com oito anos já se sabe muito bem que a droga é um pó branco que vem em sacos de plástico transparente. A professora tardava a chegar e nenhum de nós tinha coragem de enfiar a mão para retirar o saco. Além disso, tanto podia ser droga como... dinamite armadilhada! 
Finalmente alguém decidiu armar-se em aventureiro e trazer para a luz do dia o que os bandidos haviam deixado para trás.
Algodão! Era um saco com os restos de algodão que tinham sido usados num trabalho manual feito no dia anterior.

E chegou a senhora professora. Tudo sentado nos seus lugares - se ela entra na sala sem medo, é porque tudo estava seguro.
Tudo sentado nos seus lugares... e foi mais um dia de aulas.

11 comentários:

  1. oh que fofinha :) Tenho tantas saudades desses tempos e sei que a minha reacção e colegas seria precisamente igual. Tempos que não voltam mas deixam muitas, cada vez mais, saudades ;)

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    1. O melhor é que, se nos lembrarmos desses tempos, com um bocadinho de jeito, conseguimos reproduzir aquela mentalidade fantástica de puto a viver a sério!

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  2. Ahah que giro! Realmente a imaginação duma criança é do melhor que há! Ver droga (crianças informadas!) onde era algodão...parecido mas nem tanto! :)

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    1. Melhor do que isso só mesmo a possibilidade dos cadernos estarem armadilhados. Hollywood, para quando?

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    2. Sim essa hipótese também era boa! Mas continuo a preferir a droga/algodão...são gostos :D

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    3. Se quiseres posso tentar arranjar-te o contacto de um centro de desintoxicação/tira borboto.

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  3. Pedimos desculpa mas é apenas para divulgar. Um casal, a crise, poupanças e histórias de quem vive a crise como muitos outros, mas onde a poupança é o melhor remédio. Pode passar a mensagem…? Obrigado!

    http://ocarteiravazia.blogspot.com/

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  4. Ah que saudades da escola primária!!! Jogavamos às escondidas no meio de um campo de milho :) Mas nunca houve nenhum assalto..

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    1. A tua escola era para meninos... (no pun intended).
      Nós jogavamos às escondidas e ao caça-caça pelos locais proibidos da escola (que é como quem diz: num monte junto ao muro para a quinta vizinha, cujo dono ameaçava de porrada os que o trespassassem!)

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  5. No meu tempo a droga estava nos rebuçados que os estranhos ofereciam; não sabia de sacos com pó branco!

    ( e olha lá, tu não sais das "drogas"? salvo seja:)

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    1. Eu levava isso dos rebuçados tão a peito que nem dos meus amigos aceitava nada. Podiam ser rebuçados vindos directamente das mães, mas sabia lá quem tinha dado às mães...

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Aceitam-se pires de amendoins.