quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Aleatoriedades da noite

Meia-noite.
No Parque Eduardo VII está alguém a tocar flauta*.
É uma música d' O Senhor dos Anéis.

*Sim, uma flauta daquelas dos putos do quinto ano.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Pequeno diário 116

Nos seus setentas, a dona do café está à porta do estabelecimento e cumprimenta quem entra. Despachada, despacha logo os cumprimentos.
"Bom dia, senhor Cassiano! Vai-se andando, muito obrigada!"

Só depois disso é que o senhor Cassiano lhe deseja os bons dias e pergunta se está tudo bem com a vida.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Banhos de Sábado

O gato apanha banhos daquele sol de início de tarde, naquela pequena varanda onde mal cabe, neste Inverno mais frio que o normal. 
As janelas estão abertas. Lá dentro alguém arruma o que sobra de um almoço de Sábado. Eu saio de casa a pensar que vou apenas sair, mas das janelas abertas soam os acordes de um fado, dumas colunas que propositadamente estão com mais volume que o normal.

Afinal não saio apenas de casa. Afinal, tal como o gato, apanho banhos de sol, de Lisboa, e de fado.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Dezassete

Se dois-mil-e-quinze foi o ano de quebra de ciclos, de reset, dois-mil-e-dezasseis foi o ano de construção de bases. Foi o ano de criar o local onde se pode crescer, o ano de conhecer, re-conhecer, des-conhecer. Foi um ano em que as coisas boas foram muito boas, e as coisas más foram a semente de coisas boas.
Foi, acima de tudo, um ano que se resume a uma palavra: gratidão.

Dois-mil-e-dezasseis, a ti e aos teus que foram meus, o meu mais sincero agradecimento.

Dois-mil-e-dezassete, Rui Pi enviou-lhe um pedido de amizade. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Vinte e oito

Nunca tive o meu dia de aniversário como algo de especial ou merecedor de celebração. No entanto, nos últimos anos, o mundo que o universo me dá tem-me oferecido um dia surpreendente a cada ano que passa.
A chegada aos vinte-e-oito não foi excepção, mas foi excepcional. Dou por mim a uns três mil quilómetros de casa, vivendo o que podia dar uns três mil quilómetros de linhas de texto mas que as palavras pouco podem dizer.
Palermo tem os seus muitos encantos de lá e de cá, e fiz questão de os viver a todos. Comida, cultura, beleza, pessoas, comida, experiências e comida.

Chego ao fim e percebo que foram vinte-e-oito anos de um mundo a gostar de mim. Vinte-e-oito anos de felicidade. Uma eternidade de gratidão.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Pequeno diário 115

Diz que amanhã vou apalermar. 
Até já, Palermo!

(Perdão pela piada fácil, a inspiração anda fraca...)

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"I respect that" ou Sobre o respeito exacerbado que se tem pela religião, acima de outras coisas da vida

"Douglas Adams di-lo tão bem, numa palestra improvisada feita em Cambridge pouco antes da sua morte, que nunca me canso de partilhar as suas palavras:
     A religião... tem certas ideias nucleares às quais chamados sagradas, ou santas, ou o que for. O que isto significa é, 'Aqui está uma ideia ou noção sobre a qual não podes dizer nada de mal; apenas não podes. Porque não? - porque não podes!' Se alguém votar por um partido com o qual não concordas, és livre de argumentar sobre isso tanto quanto quiseres; toda a gente tem uma discussão mas ninguém se sente ofendido por isso. Se alguém acha que os impostos devem subir ou descer, és livre de argumentar sobre isso. Mas, por outro lado, se alguém diz 'Não devo fazer nada a um Sábado', tu dizes, 'Respeito isso'."

Tradução livre de um excerto do livro "The God Delusion", de Richard Dawkins.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Varicela aos vinte-e-sete

O meu segredo de beleza? Quase um tubo de Bepantene Plus por dia.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pequeno diário 114

Estive a fazer as contas do orçamento para Dezembro... acho que vou ter que vender um rim e/ou o corpo.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Pequeno diário 113

Uma pequena parte de mim tem o desejo secreto de que o Trump ganhe. É aquela pequena parte que abranda na estrada para ver melhor aquele acidente aparatoso na outra faixa.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Pequeno diário 112

No metro, uma ama chega com duas crianças de 3/4 anos, que resolvem sentar-se no chão. Uma delas senta-se em cima do meu pé.
Diz a ama: "Cuidado, que te sentas em cima do pé do menino."
Responde o outro puto, depois de olhar para a minha cara: "Não é menino, é senhor!"

...

Mais à frente também resolve informar que seu dois arrotos. Mas a idade já não me permitiu ouvi-los.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Graças

Domingo nas ruas da aldeia que é cidade capital, que esquece o trânsito por umas horas e que torna os rios de carros em pontes para gentes.
Eu sigo sozinho, perdido na Graça, e ela sozinha segue, com objectivo definido. Eu envergo um fato-de-treino meio suado, caminho em passo ligeiro e esforço-me por manter as costas direitas, porque sei que tenho uma postura errada. Ela leva um xaile amarrado à cintura, dá os passos lentos, tão depressa quanto consegue e as suas costas estão tão curvadas pela idade, que não consegue sequer olhar em frente.
Tem idade para bisnetos. Talvez não os tenha. 
Tem idade, aspecto e possivelmente saúde para ir de mão dada com a morte. Mas vai sozinha.
Tem o peso do mundo em cima de si. Há anos que não vê muito mais que o chão que pisa de forma fraca.

Mas é Domingo. E tem duas flores cor-de-rosa no cabelo. E segue sozinha porque tem idade para ter o mundo só seu e não é ele que tem o seu peso em cima dela, é ela que olha de cima para ele.

E eu sorrio e desejo um dia ter mesma vida que ela teve para colocar aquelas duas flores.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A ternura dos setenta

Soa um toque de recepção de SMS. Um típico ti tiiii tii tiiii dos antigos Nokias, mas polifónico e com umas ligeiras purpurinas sonoras.

Diz a senhora, bem acima de septuagenária, para a sua colega de caminhada, de igual idade: "Ouça, você tem um toque de telemóvel muito bonito".

Pequenos amendoins desta vida.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Pequeno diário 111

Nota mental: nunca escovar os dentes tendo as mãos molhadas. Eventualmente, a escova vai escorregar e vão acertar com a parte de plástico duro mesmo em cheio na gengiva e vai doer p'ra caraças.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Artificial

"O desenvolvimento de inteligência totalmente artificial pode levar ao fim da raça humana. Iria governar-se a ela própria, redesenhar-se a uma velocidade cada vez maior. Os humanos, que estão limitados a uma evolução biológica lenta, não conseguiriam competir e seriam suplantados."

por Stephen Hawking

Honestamente, não acho a ideia assim tão má...

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Expressividade de chupeta

A maioria das pessoas adoram quando os bebés começam a ter as primeiras expressões faciais definidas, especialmente os risos e as caretas. Toda a gente se derrete com aquela gargalhada, aquele sorriso malandro, aquela língua de fora. Julgam que aquele pequeno ser humano está a começar a dar os primeiros passos na interacção social, na vida, no fundo.

Mas aquilo que mais me fascina na expressividade infantil são aqueles primeiros olhares de indignação. É isso que realmente mostra que aquela criatura entrou no mundo real e começou a perceber o quão fucked up é. Aquele olhar de lado, aquele ligeiro movimento de sobrancelha à frente daquele cérebro que ainda não tem capacidade de controlar a língua o suficiente para dizer alguma coisa que se entenda, mas que já consegue perceber que há algo de muito errado do lado de fora do útero.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Lá fora

Na minha adolescência, ter um amigo a estudar no estrangeiro dava uma espécie de orgulho na terceira pessoa. Afinal, conhecíamos alguém além fronteiras, a falar outra língua, a viver outra cultura. Distante. Raros contactos por uma ou outra carta ou email. O seu regresso em tempo de férias era sempre O evento. Parava meia escola, se fosse preciso, e o fim-de-semana era só nosso.
Hoje, mais perto dos trinta do que dos vinte, metade das pessoas com quem nos damos está fora, falamos com elas quase todos os dias. A outra metade está a pensar em ir para fora ou, pelo menos, não nega essa possibilidade. Os regressos são para um jantar e um copo. A felicidade é grande mas...

...sem stress, que daqui a umas semanas somos nós que lá vamos, para um jantar e um copo mais caros.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Talões

Vivemos numa era em que os emails têm frases que alertam as pessoas para a sustentabilidade ambiental e aconselham à não impressão dos mesmos.
Ao mesmo tempo, um talão de supermercado da compra de uma peça de fruta e uma caixa de chiclets tem três metros e ainda traz anexos.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Pequeno diário 110

O cabelo branco que estava do lado esquerdo da cabeça passou para o lado direito.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O cheirinho a roupa lavada

Há questões que me afectam a vida, a alma, o entendimento do universo.

Porque é que detergentes e amaciadores para a roupa da mesma marca não são vendidos com as mesmas essências?
Faz algum sentido eu querer lavar a roupa com sabão natural de rosas e depois amaciá-la com pinheiro spa selvagem? Porque é que insistem em obrigar as pessoas a fazer uma mistela de cheiros? 

Se a ideia é puxar pela criatividade e levar os clientes a criarem os perfumes que mais gostam, então ao menos que fornecessem gratuitamente um manual com sugestões. É que eu comprei agora dois perfumes que não costumo comprar e não sei como vai cheirar a minha roupa quando a tirar da máquina!