terça-feira, 8 de novembro de 2016

Pequeno diário 113

Uma pequena parte de mim tem o desejo secreto de que o Trump ganhe. É aquela pequena parte que abranda na estrada para ver melhor aquele acidente aparatoso na outra faixa.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Pequeno diário 112

No metro, uma ama chega com duas crianças de 3/4 anos, que resolvem sentar-se no chão. Uma delas senta-se em cima do meu pé.
Diz a ama: "Cuidado, que te sentas em cima do pé do menino."
Responde o outro puto, depois de olhar para a minha cara: "Não é menino, é senhor!"

...

Mais à frente também resolve informar que seu dois arrotos. Mas a idade já não me permitiu ouvi-los.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Graças

Domingo nas ruas da aldeia que é cidade capital, que esquece o trânsito por umas horas e que torna os rios de carros em pontes para gentes.
Eu sigo sozinho, perdido na Graça, e ela sozinha segue, com objectivo definido. Eu envergo um fato-de-treino meio suado, caminho em passo ligeiro e esforço-me por manter as costas direitas, porque sei que tenho uma postura errada. Ela leva um xaile amarrado à cintura, dá os passos lentos, tão depressa quanto consegue e as suas costas estão tão curvadas pela idade, que não consegue sequer olhar em frente.
Tem idade para bisnetos. Talvez não os tenha. 
Tem idade, aspecto e possivelmente saúde para ir de mão dada com a morte. Mas vai sozinha.
Tem o peso do mundo em cima de si. Há anos que não vê muito mais que o chão que pisa de forma fraca.

Mas é Domingo. E tem duas flores cor-de-rosa no cabelo. E segue sozinha porque tem idade para ter o mundo só seu e não é ele que tem o seu peso em cima dela, é ela que olha de cima para ele.

E eu sorrio e desejo um dia ter mesma vida que ela teve para colocar aquelas duas flores.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A ternura dos setenta

Soa um toque de recepção de SMS. Um típico ti tiiii tii tiiii dos antigos Nokias, mas polifónico e com umas ligeiras purpurinas sonoras.

Diz a senhora, bem acima de septuagenária, para a sua colega de caminhada, de igual idade: "Ouça, você tem um toque de telemóvel muito bonito".

Pequenos amendoins desta vida.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Pequeno diário 111

Nota mental: nunca escovar os dentes tendo as mãos molhadas. Eventualmente, a escova vai escorregar e vão acertar com a parte de plástico duro mesmo em cheio na gengiva e vai doer p'ra caraças.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Artificial

"O desenvolvimento de inteligência totalmente artificial pode levar ao fim da raça humana. Iria governar-se a ela própria, redesenhar-se a uma velocidade cada vez maior. Os humanos, que estão limitados a uma evolução biológica lenta, não conseguiriam competir e seriam suplantados."

por Stephen Hawking

Honestamente, não acho a ideia assim tão má...

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Expressividade de chupeta

A maioria das pessoas adoram quando os bebés começam a ter as primeiras expressões faciais definidas, especialmente os risos e as caretas. Toda a gente se derrete com aquela gargalhada, aquele sorriso malandro, aquela língua de fora. Julgam que aquele pequeno ser humano está a começar a dar os primeiros passos na interacção social, na vida, no fundo.

Mas aquilo que mais me fascina na expressividade infantil são aqueles primeiros olhares de indignação. É isso que realmente mostra que aquela criatura entrou no mundo real e começou a perceber o quão fucked up é. Aquele olhar de lado, aquele ligeiro movimento de sobrancelha à frente daquele cérebro que ainda não tem capacidade de controlar a língua o suficiente para dizer alguma coisa que se entenda, mas que já consegue perceber que há algo de muito errado do lado de fora do útero.