"O teatrinho das "aparições" serve assim para trazer de volta a reza diária do terço, uma fórmula com tudo de paganismo religioso. Com a qual as pessoas que a reproduzem pensam, tal como os pagãos, que é no seu muito repetir as mesmas palavras, como uma cassete, que obtêm do seu Deus todo-poderoso, como o padrinho de uma grande máfia, a satisfação dos seus egoísmos individuais, familiares e corporativos. E não é que, cem anos depois, a reza do terço continua ainda a ser o que mais se realiza em Fátima, puro paganismo, pura alienação, pura beatice, nenhuma espiritualidade transformadora do ser-viver das pessoas e das sociedades?! Uma humilhação de todo o tamanho, que deveria envergonhar os clérigos que, com a sua presença em grande número, mas sempre bem à parte e bem acima das multidões e rodeados de honras e de privilégios, continuam a dar cobertura a toda aquela pantomina sem pés nem cabeça. Um vómito sagrado, milhões de vezes repetido, ao longo de cem anos, num país e num continente cada vez mais egoístas, insolidários, corruptos, exploradores, sem quererem saber das pessoas mais fragilizadas para nada. As quais, assim, ficam cada vez mais entregues à sua solidão e ao seu abandono, piores do que os cães e os gatos de estimação... Mas àquela imagem da senhora de Fátima é que não pode faltar nada, nem velas a arder dia e noite, nem clérigos, nem freiras, nem multidões humilhadas e carentes de tudo, nem dinheiro e ouro em quantidades inimagináveis, nem flores, nem andores, nem basílicas, nem bugigangas de recordação, nem sangue, nem lágrimas, nem gente a rastejar e ajoelhada, num sadomasoquismo de arrepiar..."
in "Fátima, S.A.", do Pe. Mário Oliveira