terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Pequeno diário - Lisboa edition 20

Sei que não tenho complexos de superioridade quando, a caminhar na rua, desvio o meu percurso para não interferir com o de uma pomba no chão.

Ou então, pode ler-se a frase acima como "Não é medo, é receio." Já estive para levar com uma pomba nas trombas uma dúzia de vezes. Os bichos são doidos!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Não há sono e a adoração pelo nosso lado animal


Sobre o acto de bocejar:

"Bocejar pode ter evoluído como uma maneira de um indivíduo cansado influenciar o resto do grupo a parar e descansar."

Tradução livre de um excerto do livro "The Gap: the science of what separates us from other animals" de Thomas Suddendorf.

Adoro conhecer as bases de coisas completamente banais e aparentemente inúteis no ser humano. Especialmente se essas coisas apelarem ao nosso lado mais animalesco e primitivo, como o facto de, possivelmente, a generalidade dos homens apreciar mulheres com um decote bem preenchido porque um grande par de mamas se assemelha ao rabo de uma mulher com boa anca, logo, boa parideira... reminiscências de um passado em que o kamasutra só contemplava o doggy-style.
Vamos a ver, e grande parte das coisas que fazemos agora não passam de instintos camuflados por uma capa daquilo a que chamamos racionalismo, gosto pessoal e civilização. 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

You have selected Microsoft Sam as the computer's default voice

Estamos em 2014 e o tradutor do Google consegue ler este post com uma voz que quase roça o sensual, no entanto, nos filmes futuristas, os computadores ainda falam como se estivéssemos a saltar do XX para o XXI.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A falta que os reality shows reais me fazem

Em primeiro lugar, aqui me confesso que o título tem a expressão em inglês propositadamente para ter mais uma visita ou duas. Por norma, escreveria "espectáculos de realidade", porque acho mais piada ao termo, e porque aqui no blog tenho a mania que sou engraçado.

Em segundo lugar, o tema do post.
Durante um ano trabalhei num meio que, quase diariamente (e quase mais do que uma vez por dia), envolvia uma pausa para o cigarro (eu não fumo, mas fazia a pausa na mesma, pois claro!) para convívio e partilha dos dramas diários do trabalho num hospital. Na altura, sozinho no meu grupo de não-fumadores, assistia com um meio sorriso às conversas em que raramente participava, sobre os choros, gritos, insultos, traições, amizades, amores, estupidezes, diálogos e incompetências. Tudo aquilo me interessava imenso, como demonstração das novelas reais que o ser humano comum vive mas, ao mesmo tempo, passava-me completamente ao lado porque nunca fui de me envolver ou dar valor a coisas que seriam facilmente resolvidas se toda a gente fosse mentalmente adulta em todos os campos da interacção social. No fundo, olhava para tudo aquilo como se se tratasse de um programa apresentado pela Teresa Guilherme, mas com muito mais piada e realismo (de conversas, de temas e de mamas). Desprezava tudo aquilo da mesma forma.
Actualmente trabalho num local onde ninguém fuma e o contacto social ocorre quase exclusivamente há hora de almoço, e os maiores dramas não passam de coisas relacionadas com a falta de papel na impressora, ou o facto de essa falta de papel ser secundária, já que o aparelho não funciona. É nesses momentos que sinto falta de uma boa dose de realidade em forma de espectáculo dramático.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O medo dos putos... ou os putos do medo... ou o puto do medo dos putos

Coisas que me atormentam... medos... tenho alguns. Envelhecer sem consciência disso, ser enterrado vivo, feridas no eponíquio, morrer com dor, centopeias próximo da minha cara... Mas estes são medos pontuais, chamemos-lhes assim. Lembro-me deles de vez em quando, apesar de, como qualquer medo, serem uma presença constante. No entanto, há um receio que mexe mais profundamente comigo. Tal como os outros, não penso nele a toda a hora, mas quando penso, afecta-me mais profundamente. Talvez porque, no fundo, é algo menos inevitável do que os outros que referi.
Não saber criar um bom ser humano.

Gosto de crianças. Quero e espero um dia ter filhos. Não é propriamente um sonho... chamar-lhe-ia mais um gosto. Contudo, há algo que me assusta: a possibilidade de eu ser incapaz de criar alguém que, quando adulto, seja uma boa pessoa, com bons valores e uma cabeça que saiba pensar por si própria e julgar com justiça a vida que tiver.
Talvez na altura de ter a criança, haja um instinto primário qualquer a acordar em mim que me guie na direcção certa mas, até lá, o pensamento é sempre cheio de "e ses" e "como é que...?". À minha volta vejo um número crescente de crianças mal-criadas, adolescentes problemáticos, adultos que balem em vez de falar. 
Não é que me ache a melhor pessoa do mundo (longe disso), mas ao menos tenho essa noção (já não é mau!). Como filho, acho que nunca dei grandes problemas, apesar de os meus pais terem sido tão permissivos. Podia achar que era esse facto, mas conheço outros filhos de pais permissivos que foram autênticas dores de cabeça. Penso que tem que haver um equilíbrio entre a liberdade e a disciplina, e também receio não saber onde me colocar entre esses dois.

Espero que, pelo menos, no futuro um filho meu me olhe da mesma maneira que eu olho para os meus pais. Seria feliz, se assim fosse.

Talvez na altura de ter a criança, haja um instinto primário qualquer a acordar em mim que me guie na direcção certa mas, até lá, acho que vou pedir à minha mãe umas aulas de "Olhar ameaçador que, com um pouco mais de esforço, facilmente se transforma em raios laser mortais".

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pequeno diário - Lisboa edition 19

Crise? Os spas de Lisboa têm todos sábados cheios durante, pelo menos, um mês.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A mera existência

Passamos a vida a viver, a sobreviver, a aproveitar, a querer aproveitar, a lamentar quando não se aproveitamos e a aumentar o peso da consciência quando nada se faz para se fazer qualquer destas coisas.
O mundo diz-nos que temos que viver a vida. Carpe diem. Socializar. Conhecer. Aprender. Ensinar. Treinar. Comer. Beber. Criar. Memorizar.

Um tempo de tudo, tudo, tudo em que a presença do nada é não menos que negativa para esta nossa pequena estada no lado vivo da existência (se é que há outro lado da mesma). E com isto tudo esquecemo-nos de ser básicos. Não básicos no sentido de mentalmente ausentes, mas no sentido de primários. De, como seres humanos, nos desligarmos gradualmente de todas as capas de civilização, e de vida, e de experiências que nos cobrem. Esquecemo-nos de existir.
Passamos a vida a viver para fora de nós e esquecemo-nos de existir dentro de nós. Queremos tanto viver tudo o que há do lado de fora da epiderme, que nos esquecemos que também podemos viver do lado de dentro. Ignoramos que o nosso cérebro é mágico e que a criatividade é algo que vem de dentro e que não consegue sair se nos deixarmos bombardear constantemente pelo que está por fora.

A vida é, realmente, feita de pequenos prazeres. E se há coisa que me dá gozo é a pura existência. Estar deitado na cama, coberto de nada, às escuras e limitar-me a existir. Sem sono, sem vontade de dormir, mas de olhos fechados. Quanto muito, uma qualquer música hipnótica a tocar em baixo volume que, entretanto, começa a perder o sentido e a desaparecer perante a negritude do quarto e da minha visão ao passo que todo um outro lado meu começa a ganhar cor.
Melhor que isso, só um pires de amendoins e uma coca-cola fresquinha.