quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pequeno diário - Lisboa edition 19

Crise? Os spas de Lisboa têm todos sábados cheios durante, pelo menos, um mês.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A mera existência

Passamos a vida a viver, a sobreviver, a aproveitar, a querer aproveitar, a lamentar quando não se aproveitamos e a aumentar o peso da consciência quando nada se faz para se fazer qualquer destas coisas.
O mundo diz-nos que temos que viver a vida. Carpe diem. Socializar. Conhecer. Aprender. Ensinar. Treinar. Comer. Beber. Criar. Memorizar.

Um tempo de tudo, tudo, tudo em que a presença do nada é não menos que negativa para esta nossa pequena estada no lado vivo da existência (se é que há outro lado da mesma). E com isto tudo esquecemo-nos de ser básicos. Não básicos no sentido de mentalmente ausentes, mas no sentido de primários. De, como seres humanos, nos desligarmos gradualmente de todas as capas de civilização, e de vida, e de experiências que nos cobrem. Esquecemo-nos de existir.
Passamos a vida a viver para fora de nós e esquecemo-nos de existir dentro de nós. Queremos tanto viver tudo o que há do lado de fora da epiderme, que nos esquecemos que também podemos viver do lado de dentro. Ignoramos que o nosso cérebro é mágico e que a criatividade é algo que vem de dentro e que não consegue sair se nos deixarmos bombardear constantemente pelo que está por fora.

A vida é, realmente, feita de pequenos prazeres. E se há coisa que me dá gozo é a pura existência. Estar deitado na cama, coberto de nada, às escuras e limitar-me a existir. Sem sono, sem vontade de dormir, mas de olhos fechados. Quanto muito, uma qualquer música hipnótica a tocar em baixo volume que, entretanto, começa a perder o sentido e a desaparecer perante a negritude do quarto e da minha visão ao passo que todo um outro lado meu começa a ganhar cor.
Melhor que isso, só um pires de amendoins e uma coca-cola fresquinha.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Mentol sexy

A acreditar nas embalagens, o meu dentífrico é de "menta sem limites" e as minhas chiclets são de "menta fresca".
Para quando rebuçados de "menta assanhada"? Gelado com topping de "menta rebelde"? After-eight com "menta dominatrix"?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Pequeno diário - Lisboa edition 18

Quando ensinam as crianças que "não se olha directamente para o sol", deviam incluir também "não se olha directamente para os reclames luminosos de farmácias". 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

"Men are struggling today"

"Os homens estão a esforçar-se arduamente, hoje em dia. Ninguém quer falar sobre isso, mas estão.
(...)
Os homens constituem a maioria das pessoas na prisão, e também têm sentenças mais longas do que as mulheres, quando cometem o mesmo crime. As mulheres estão a formar-se a uma taxa muito mais elevada que os homens, em todos os níveis de escolaridade. Os homens têm quatro vezes mais probabilidade de cometer suicídio. Quase todas as leis entre géneros favorecem a mulher (custódia, suporte familiar, apoio de filhos, distúrbios/violência doméstica). E não existem "centros para homens" que apoio, como existem para mulheres. E os homens, como já dissemos, são encorajados a não falar sobre estes assuntos a amigos ou família."

Tradução livre de um excerto do texto "Men are struggling today" de Aleanbh Ní Chearnaigh.

Corro o risco de me tornar pouco original com estas traduções livres, mas faz sempre bem lembrar que, apesar de milhares de anos de história, ainda estamos muito atrasados nas coisas mais básicas.
Afecta-me mais do que o que previa aperceber-me que a humanidade ainda tem tanto que andar e que continua a resistir a certas perfeições que, se formos a ver bem, não devem ser assim tão difíceis de alcançar.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Pequeno diário - Lisboa edition 17

Mete-me impressão quando uma pessoa tem tempo para depilar tudo o que é pêlo corporal do pescoço para baixo, mas não arranjar um minuto para cortar as unhas dos pés.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Dura praxis, asini populus

Com a morte dos jovens na praia do Meco, vem novamente à baila o tema "praxe". São pais a falarem em crime, é uma universidade a abrir inquéritos, é a comunicação social a insistir na influência da praxe na tragédia. Apesar de os factos ainda não estarem devidamente apurados, os programas da manhã já têm pessoas com "Dr." no nome a falar sobre as pressões sociais que a praxe implica.

O argumento de que "ninguém é obrigado a participar na praxe" resulta em quase nada, uma vez que é contraposto com o facto de o meio fazer com que, apesar de não obrigada, uma pessoa seja levada a fazer certas coisas no âmbito da "integração académica". Daí ao crime, é um passo pequeno.
Nessa perspectiva, proponho que se abram inquéritos-crime relativamente a anúncios que incitam as mulheres a emagrecer de forma doentia, que se caia em cima das empresas de fast-food que levam a que as pessoas se encham de inimigos da saúde cardiovascular, que se processem os filmes por fazerem com que fumar pareça algo muito fixe...

Ou então, se calhar... só se calhar... a incriminar (mesmo não-oficialmente), que se incrimine uma sociedade que não deixa criar pessoas que pensem pela sua própria cabeça, e que o pessoal deixe de ser burro.
Se calhar...