quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Cardio

As mulheres têm, à partida, a vida facilitada na arte do engate.

No ginásio, a trintona sai da passadeira, exagera o ar de cansaço e diz para o homem mais alto e musculado da sala que hoje está muito acelerada. Agarra no decote de licra cor-de-rosa e puxa-o bem para baixo, ordenando-o a sentir. Ele põe a mão no peito dela e não sente o rápido batimento à primeira, nem à segunda, nem à terceira mudança de posição da mão.
Sentiu. Concordou. De facto ela está acelerada. Retirou a mão. Ela continuou com a gola puxada até meio do peito enquanto conversavam.
Ela tem um ar sorridente. Ele tem um ar triunfante. Acho que ambos ganharam o dia.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Além dos amendoins

Abrir um saco de café moído e sentir o aroma que se solta.

Pequenos prazeres da vida...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A ternura dos oito

A inocência e ignorância das crianças tem várias características. Para os adultos que as vêem de fora, são coisas fofas, ternurentas, engraçadas; para os próprios infantes, são uma emoção!

Estava eu, há quinhentos anos atrás, a frequentar a segunda ou terceira classe quando, mal entro na escola, com os meus colegas, recebo a notícia de que tinha havido um assalto. A adrenalina subiu ao máximo. Assaltos eram coisas do telejornal e dos filmes, mas tinha acontecido um ali, na nossa segunda casa de todos os dias!
Como é óbvio, na nossa cabeça de sete ou oito anos, nunca na vida os ladrões iriam entrar na Escola apenas para roubar dinheiro e bens. Como é óbvio, teriam que deixar armadilhas em todo o lado! Entramos na sala a medo e nenhum de nós se sentou... tocar numa das cadeiras poderia accionar um qualquer explosivo. Os cadernos estavam no mesmo sítio onde tinham sido deixados no dia anterior, aliás, tudo estava no mesmo sítio (nem sequer tinham ido àquela sala, mas nós não sabíamos); mesmo assim, não mexemos em nada. Sabe-se lá que bomba poderia estar escondida... ... ... no meio de um caderno! Já para não falar de doenças que os (certamente) drogados, teriam deixado nos nossos lápis e canetas, de propósito!

"Droga!", grita uma colega, apontando para uma prateleira.
Fomos todos espreitar. De facto, no fundo do armário escuro, via-se um saco com um conteúdo branco. Ignorantes, mas não tanto. Com oito anos já se sabe muito bem que a droga é um pó branco que vem em sacos de plástico transparente. A professora tardava a chegar e nenhum de nós tinha coragem de enfiar a mão para retirar o saco. Além disso, tanto podia ser droga como... dinamite armadilhada! 
Finalmente alguém decidiu armar-se em aventureiro e trazer para a luz do dia o que os bandidos haviam deixado para trás.
Algodão! Era um saco com os restos de algodão que tinham sido usados num trabalho manual feito no dia anterior.

E chegou a senhora professora. Tudo sentado nos seus lugares - se ela entra na sala sem medo, é porque tudo estava seguro.
Tudo sentado nos seus lugares... e foi mais um dia de aulas.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Emcasodedúvidaoupersistênciadossintomas

Há pessoas que arranjam músicas específicas para a prática de exercício; dão-lhes aquele ânimo, ritmo e intensidade de que precisam para suar.
Eu, fiel ao meu limitado gosto musical, recuso-me a ter puntz puntz na minha biblioteca. Por isso, uso a fantástica opção de aumentar a velocidade de reprodução do meu MP3.

Como é fantasticamente surreal pedalar ao ritmo de uma versão duas vezes mais rápida de "Yesterday".

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Pequeno diário - Lisboa edition 3

Nos últimos três dias ninguém me tentou vender droga. Algo de errado se passa por estes lados...

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Miséria

Há várias coisas que me assustam na vida, no futuro. Uma delas é poder um dia chegar a ter uma vida sem tecto, sem cama, sem comida, sem dinheiro, sem pessoas... chegar à miséria. Especialmente a uma miséria conformada e inconsciente.
Não é raro vermos seres humanos a mendigar, nitidamente pertíssimo do estado mais baixo a que a vida de uma pessoa pode chegar.
E se um dia sou eu naquele lugar? E se um dia sou eu a pedir uma moeda para sobreviver mais um dia, enquanto o meu olhar fita o infinito, sem ver nada, certamente numa cabeça que já em nada pensa?
Maior do que o medo da miséria, é o medo de um dia poder chegar a esse ponto e não ter a coragem... pior!... a sanidade e consciência para ter um acto de misericórdia comigo mesmo e deixar de sobreviver.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Pequeno diário - Lisboa edition 2

Pelo som das sirenes, creio que os condutores das ambulâncias são também DJs em part-time.