Acorda um pouco mais tarde do que o costume. Não muito, mas o suficiente para a chuva que bate na janela ter menos força para o manter na cama. Toma um duche e sai de casa sem comer, directo para o trabalho. Não o local de trabalho do costume. Outro. O local antigo, o das memórias, aquela espécie de cordão umbilical.
Não gosta de falar ao telefone, no entanto foi obrigado a estar meia hora a ouvir música foleira e a ver a sua chamada passada de pessoa em pessoa, de anónimos mal encarados, a uma Rita simpática e a uma Mónica com a voz estranha. Não gosta de falar ao telefone mas viu o seu saldo a sumir-se do telemóvel.
Chove torrencialmente. É a melhor altura de sair de um local de trabalho para ir para outro. O novo, o do crescimento, o do sucesso frustrado. Como é óbvio, o carro está estacionado bem longe e guarda-chuva é algo que não consta do seu dicionário... nem do seu inventário.
Sentado numa das cadeiras do bar do rés-do-chão do hospital, acompanha-se de um panike de chocolate e um chá de menta. Na mesa do canto, uma enfermeira exibe às suas companheiras uma fotografia no seu telemóvel.Ou é um cão, ou uma criança. Ele não consegue decifrar.
Uma idosa ri-se com um ar sinistro para o segurança, um homem está de pé ao balcão a coçar o que é um volume exagerado nas suas calças, outro atravessa o átrio com um saco cheio de batatas e segue para a zona de entrada das visitas. Um médico deixa cair o estetoscópio que trás ao pescoço e quase o pisa, a médica que o acompanha solta um guincho.
No laboratório, Pink Floyd toca acima do barulho das máquinas avariadas, risadas histéricas e cochichos de conspiração. Ele pega nos frascos cheios de escarros e começa mais uma sessão de trabalho.
Como diria o Bruno Nogueira, o mundo é bué cenas.