quinta-feira, 11 de abril de 2013

Antes de sexta

Acorda um pouco mais tarde do que o costume. Não muito, mas o suficiente para a chuva que bate na janela ter menos força para o manter na cama. Toma um duche e sai de casa sem comer, directo para o trabalho. Não o local de trabalho do costume. Outro. O local antigo, o das memórias, aquela espécie de cordão umbilical. 
Não gosta de falar ao telefone, no entanto foi obrigado a estar meia hora a ouvir música foleira e a ver a sua chamada passada de pessoa em pessoa, de anónimos mal encarados, a uma Rita simpática e a uma Mónica com a voz estranha. Não gosta de falar ao telefone mas viu o seu saldo a sumir-se do telemóvel.
Chove torrencialmente. É a melhor altura de sair de um local de trabalho para ir para outro. O novo, o do crescimento, o do sucesso frustrado. Como é óbvio, o carro está estacionado bem longe e guarda-chuva é algo que não consta do seu dicionário... nem do seu inventário.
Sentado numa das cadeiras do bar do rés-do-chão do hospital, acompanha-se de um panike de chocolate e um chá de menta. Na mesa do canto, uma enfermeira exibe às suas companheiras uma fotografia no seu telemóvel.Ou é um cão, ou uma criança. Ele não consegue decifrar.
Uma idosa ri-se com um ar sinistro para o segurança, um homem está de pé ao balcão a coçar o que é um volume exagerado nas suas calças, outro atravessa o átrio com um saco cheio de batatas e segue para a zona de entrada das visitas. Um médico deixa cair o estetoscópio que trás ao pescoço e quase o pisa, a médica que o acompanha solta um guincho.
No laboratório, Pink Floyd toca acima do barulho das máquinas avariadas, risadas histéricas e cochichos de conspiração. Ele pega nos frascos cheios de escarros e começa mais uma sessão de trabalho.

Como diria o Bruno Nogueira, o mundo é bué cenas.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Pequeno diário 68

Eu ainda sou do tempo em que abria a persiana do quarto e começava logo a fotossintetisar pela manhã.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Pequeno diário 67

Sei que é segunda-feira quando diminuo o volume do rádio para baixar a velocidade das escovas limpa-pára-brisas.

Sexta-feira passada

Um pouco de realização profissional e científica
Dissertação sobre o background sentimental da Lana del Rey
Companhia de putos
Questionar a espiritualidade, a possibilidade, a existência, o ser
Boa música

E o raio da máquina fotográfica avariada

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Inteligência é uma maldição

A máquina de snacks aqui do trabalho é demasiado inteligente. Quando o produto não cai na gaveta, ela sabe que ele não cai então roda a espiral mais um bocadinho até aquilo descer. Se mesmo assim não vai lá, então a rede que apanha a embalagem sobe e desce até conseguir desempancar a coisa.

Bons tempos em que quando um pacote de batatas fritas empancava, a máquina devolvia o dinheiro e podíamos utilizá-lo para ter dois pacotes pelo preço de um...

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Daqui ali

Sei bem quanto é um centimetro. Sei ver visualizar mentalmente quanto mede um metro. Com jeitinho e um pouco de esforço consigo saber que daqui ali são cem metros. Mas, além desse limite, para mim a distância mede-se por tempo num carro.
Quantos quilómetros são de tua casa até casa dela? Meia hora.
E do trabalho até casa? Uma hora e pouco, dependendo dos camiões.
E do Algarve ao Porto? Umas cinco horas, fazendo uma média jeitosa.

Não me peçam para fazer conversões para barco ou avião, que eu nunca fui bom a matemática.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Os books

A moda dos books não é nova. No entanto, não é a idade que a torna menos recorrente.
Desde os tempos do Hi5 que não é difícil encontrar um perfil social de alguém com uma galeria dedicada às fotos do belo do book.
A beleza é algo relativo, isso é mais que certo. Mas a miopia tem tratamento e a expressão facial de enjoo é comum e fácil de identificar, pelo menos aqui no ocidente. Será que ninguém repara que o resultado da sessão não é assim tão bom?
O fotografo tem as lentes assim tão embaciadas que não vê que o modelo está longe de, pelo menos, ter jeito?
Os amigos são assim tão falsos que não conseguem fazer uma chamada de atenção para dizer à pessoa que aquilo não é, de todo, bonito?
A própria pessoa está tão deslumbrada com o mundo da moda que não repara que aquela pose faz lembrar a miúda d'O Exorcista e que aquela cara anuncia vómito a qualquer altura?
A beleza é relativa, mas a quantidade mínima de dedos que uma testa deve ter... nem por isso...