No rés-do-chão do prédio onde moro há um café. Digamos que não é o local mais in da cidade. Por cima das cabeças para uma nuvem de fumo de tabaco, parte das mesas é ocupada por estudantes com uma mão no cigarro e outra no teclado de portáteis, outra parte é ocupada por velhos.
As mais variadas pessoas frequentam o sítio. Umas mais vezes, outras menos vezes, alternando entre as mesas da frente e as mesas do fundo, mais perto da televisão. Mas à noite há sempre uma mesa onde fica sempre a mesma pessoa. Ali junto à coluna, está sempre o mesmo velho. Óculos, barba branca até meio do peito, boina por cima do cabelo igualmente branco, um ligeiro aspecto de sem-abrigo e olhos colados no jornal, mesmo das poucas vezes em que está acompanhado por uma ou outra pessoa.
Não parece ser daqueles velhotes solitários que vai para os cafés só para não estar sozinho em casa. Ao mesmo tempo, não parece ser uma pessoa que vai para o café porque ainda mantém viva a vontade de sair e de conviver. Parece antes que não se preocupa sequer com a situação. Parece que aquela é a vida dele, a rotina dele e é simplesmente isso.
Fica horas naquela mesa junto à coluna. Tanto quanto sei, desde que o sol se começa a pôr (ou mesmo antes disso) até quando o café fecha, às duas da manhã.
Não sei nada sobre esse homem. Mas não me parece que saiba menos que os frequentadores assíduos do café. A sua presença, apesar de constante, é tão notada quanto seria a minha se por lá passá-se para comprar uma chiclet e ir-me embora.
Não sei nada sobre esse homem, mas um dia destes será pai de uma personagem minha.